Palavras da Equipe de Educadores do G.D.V.
Neste ano de 2001, em que a Organização das Nações Unidas ONU instituiu como Ano Internacional do Voluntário, torna-se evidente para todos nós que desponta, com muita força entre todos os povos e nações o surgimento de uma Nova Causa Mundial .
É como se a humanidade, a despeito das adversidades por que passa, estivesse se movendo no sentido de explicitar "os valores pelos quais está vivendo, em busca dos valores segundo os quais deseja viver" . A meta comum de todos os povos volta-se para a construção de um mundo mais justo, a ampliação da solidariedade, o exercício profissional com qualidade para todos, a conquista por melhores condições de vida.
Nós, educadores deste Colégio, acolhemos este momento com profunda alegria, responsabilidade e reverência, pois é inegável que a tarefa da construção desta nova consciência está na dependência direta do investimento que se faça na educação das crianças e jovens. Acreditamos que compete sobretudo a nós professores esta missão.
Sendo assim, prezados pais, queremos tomar alguns minutos do seu tempo, para posicioná-los sobre como nós, educadores de seus filhos, concebemos e estamos conduzindo este trabalho. - No decurso dos últimos dois anos, nossa equipe, dedicou-se ao trabalho de pesquisar, muito estudar e refletir no sentido de estabelecer primeiramente, um conceito compatível com a missão educacional, do que deveria vir a ser o trabalho voluntário juvenil desenvolvido a partir da escola .
Durante todo o processo de elaboração desta proposta, desde a sua concepção geral até o seu detalhamento, o grande desafio foi sistematizar reflexões e vivências de inúmeros colaboradores participantes, e fazer delas um conjunto harmonioso e coerente de iniciativas pioneiras. Por outro lado, nossas atenções se voltaram para a preocupação de não cairmos no erro de revestir nossas ações tão somente de uma "nova roupagem" e assim enveredarmos por caminhos meramente assistencialistas, pontuais e ditados por modismos esvaziados de seus reais conceitos e valores.
Como é de amplo conhecimento de todos, desde 1995, com a criação e implantação do Projeto Considere e de seu Núcleo de Educação para os Direitos Humanos - EDH, todo o projeto educacional desenvolvido em nosso Colégio se viu profundamente comprometido com os propósitos e valores ali enunciados, fato este que ora, em muito, colaborou para qualificar o resultado deste trabalho.
Sendo assim, durante este ano, a ênfase do trabalho formativo em nossa escola do Maternal ao final do Ensino Médio, está voltada para o fortalecimento da participação, cooperação e solidariedade , valores fundamentais para o alcance da formação da identidade dos educandos no sentido do protagonismo social voluntário.
Nosso trabalho se processa através de métodos e estratégias específicas para cada fase evolutiva do desenvolvimento humano. Assim sendo, na construção da consciência participativa, cooperativa e solidária , os alunos de Educação Infantil recebem estímulos, vivenciam condutas e procedimentos compatíveis com a sua faixa etária. Da mesma forma, procedemos com os alunos do Ensino Fundamental, segmento 1ª à 4ª séries. Já no estágio de 5a à 8a séries e no Ensino Médio, nossos adolescentes e jovens são conduzidos gradativamente a adquirirem informações, fazerem constatações através de visitas e vivências, a refletir e debater questões sociais e finalmente a se dispor ao protagonismo do Voluntariado Solidário fora dos muros da escola.
Quais os benefícios que a prática de ações sociais voluntárias trazem para a formação do caráter do jovem adolescente?
Partimos da premissa que, ao abrir este novo caminho, o adolescente se descobre Sujeito , se entrega ao trabalho: planeja, pesquisa, executa, avalia os resultados, conserta, caminha para novas descobertas. Aprende a ouvir, a entrevistar, a reconhecer os empecilhos e limites, a buscar novas maneiras de agir, a argumentar, a ceder, a ousar. Em quais outros lugares o adolescente tem autorização para aprender e vivenciar tantos verbos? Onde lhe é permitido, por aqueles que somente enxergam os "problemas", aprender tanto?
Esta resposta pode estar no trabalho voluntário que pode trazer ao adolescente o lugar de ator, de protagonista desta história. Este espaço coletivo, não solitário e nem heróico, é lugar de troca, de riscos e de aprendizado, de conviver com as diferenças para poder se reconhecer como ser social com lugar de cidadão e de participante do mundo. Aqui o adolescente se enxerga como pessoa, com dificuldades, problemas, sucessos, qualidades, o que o torna forte e confiante, frágil e dependente; dialética de construção de seres humanos inteiros, não de estrelas soltas e inconseqüentes.
Poder se ver como estrela de uma constelação, pertencente a um espaço e a um tempo, com regras prontas e outras a serem modificadas ou criadas, lhe garante a certeza de que seus sonhos podem ser perseguidos, suas crenças podem ser testadas e o mundo pode ser melhor porque ele pode ser em vez de só ter, pode tocar em vez de só olhar, pode ouvir em vez de só gritar, criar em vez de só reproduzir.
Neste exercício de trabalho voluntário, o adolescente pode exercitar algumas atividades realizadas em algumas profissões e com isso exercer alguns papéis profissionais, o que o ajudará, talvez, a escolher uma profissão aos 17 ou 18 anos que exercerá por toda sua vida.
Agora que conseguimos definir alguns porquês da importância do trabalho voluntário para a sociedade e para o adolescente, podemos nos perguntar:
Mas por onde começar?
- Em primeiro lugar, pensando na diferenciação entre solidariedade e caridade , esta entendida como uma barganha com Deus: - Eu faço aqui e o Senhor me recebe aí! Na caridade há uma negação do ganho que se tem ao realizar um trabalho por alguém ou por uma causa. É o outro que precisa e eu vou ajudar. Tenho e posso ajudar.
Na solidariedade há um envolvimento com o outro: faço porque tenho o compromisso humano de contribuir para com a justiça social. Reconheço a injustiça, fico indignado com ela, abomino o fatalismo dos que se acomodam diante da miséria e do desamparo e coloco a mão na massa para contribuir para a mudança deste quadro.
Na solidariedade reconheço, ainda, que eu também ganho com isso. Ser solidário é uma via de duas mãos: faço algo e recebo em troca. Recebo o quê? Aprendo a pensar, a organizar, a encontrar parceiros, a realizar tarefas, a avaliar. Descubro que faço parte de um todo, que tenho dificuldades, talentos e posso mudar muita coisa. Sair do lugar de espectador para ator é tarefa que os adolescentes sentem muito prazer em realizar.
- Em segundo lugar, nós educadores , precisamos ouvir e acompanhar os jovens, não nos furtando da posição de poder sugerir coisas, pensar juntos avaliando prós e contras desta ou daquela atitude. Assim, juntos, adultos e adolescentes, vamos traçar planos, definir objetivos, estratégias e divisão de trabalho.
Educar para a participação é criar espaços para que o educando possa empreender, ele próprio, a construção de seu ser. Aqui, mais uma vez, as práticas e vivências são o melhor caminho, já que a docência dificilmente dará conta das múltiplas dimensões envolvidas no ato de participar.
Na vivência dessa pedagogia, nós educadores, já não nos limitamos à docência. Mais do que ministrar aulas, nós devemos atuar como líderes, organizadores, animadores, facilitadores, criadores e co-criadores de acontecimentos, por meio dos quais o educando possa desenvolver uma ação protagônica.
Conseqüentemente...
Estes adolescentes entrarão no mercado de trabalho mais fortalecidos, mais seguros, mais competentes, mais criativos e mais felizes. Se analisarmos, ganharão muito mais do que darão. Saberão enfrentar situações novas, aprenderão a tomar iniciativas e conhecer a hierarquia, reconhecer a autoridade, as dinâmicas internas e as relações de poder que estão presentes nas diferentes instituições, a trabalhar em grupo de modo cooperativo, a reconhecer as diferenças individuais, a ter tolerância, a ceder e a argumentar.
Certamente, podemos afirmar que abrir a possibilidade do jovem participar é autorizá-lo a sonhar sonhos empreendedores que o levarão a ter muita gratificação como pessoa e como cidadão. É acreditar na possibilidade de romper com o fatalismo, com a desesperança, com atitudes meramente críticas ou reativas. Finalmente, é estar disposto a contribuir para a formação de mentalidades pró-ativas, capazes de promover a travessia da humanidade para uma nova ordem produzida por todos e com todos.
Como só poderia ser, o lema de toda nossa comunidade escolar para este ano é: "Todos juntos, somos fortes."